Sociedade Secreta do Óleo de Argan

Era início de tarde do que deveria ser uma quarta-feira normal quando meu namorado informou que havia encontrado o spray fixador super poderoso que usa no cabelo em dias de reunião. Meu namorado é do tipo de pessoa que resolve tudo no supermercado; no máximo em grandes redes de material pra escritório ou material de construção.

Depois de incansáveis peregrinações ao (mesmo) supermercado, procurando, sem sucesso, o spray milagroso, à beira da desistência, veio a surpresa. “Fui a uma perfumaria, achei até lixa de unha por lá! Eu não fazia ideia que eles vendiam gel em perfumaria”. Meu namorado também acha que spray fixador e  gel são a mesma coisa, não importa quantas vezes você descreva todas as divergências.

Apesar de tantas novidades; como cosméticos e acessórios de beleza sendo vendidos em perfumaria; minha primeira reação foi querer saber como ele foi parar ali, naquele universo tão improvável para um homem que resolve tudo onde consiga agrupar carne moída, pasta de dente, fita silvertape, copos de vidro e sabão em pó no mesmo carrinho.

Tudo começou quando um colega do escritório precisou comprar um pente e parou no estabelecimento no caminho de volta restaurante/trabalho. Relatos afirmam que meu namorado hesitou na porta de entrada, observou a fachada e, com a voz trêmula de nervoso, perguntou aos companheiros de almoço se poderia entrar também, alegando não estar acostumado, como se passasse por um rígido ritual de iniciação em alguma ceita secreta.

Fiquei depois por horas imaginando o que se passou na cabeça deste ser humano que só conhece Pão de Açúcar, Kalunga e Leroy Merlin. Fiquei imaginando se ele saberia citar a função de todos aqueles pincéis, adesivos pra unha, cremes para cutícula, reparador de pontas duplas, pinças, estojos de sombras, cílios postiços, esponjas de maquiagem, esponjas de banho, sabonetes líquidos, esmaltes, delineadores, unhas postiças, alicates, curvex, necessaires, potes de cosméticos pra viagens, pentes com dentes finos, pentes com dentes grossos, pentes de plástico, pentes de madeira, escova para cabelos.

Comecei a pensar em mandá-lo para uma perfumaria para comprar um shampoo, um simples shampoo. Como ele reagiria tendo à sua frente uma prateleira cheia de embalagens coloridas, para cabelos secos, oleosos, cacheados, lisos, quimicamente tratados, coloridos, danificados, com óleo de argan, queratina, ceramidas, proteína do leite, geleia real, silicone?

Pensei também em fazer uma lista e ver quanto tempo ele demoraria para achar um desodorante comum, sem perfume. Ou desafiá-lo a comprar lenços demaquilantes em apenas sete minutos, sem perguntar à atendente o que são lenços demaquilantes e onde estão localizados.

Uma lista sem fim de crueldades se formou na minha cabeça em instantes. Apontar um produto e fazer com que ele dissesse a finalidade; “Unha”, “Pele”, “Cabelos”, “Maquiagem”; em até dez segundos. Dizer uma palavra como “Aloe Vera” e dar três minutos para que ele preencha uma cesta com o máximo de produtos que contenham o composto citado. Pensei em criar até pontuação para ele trocar por cerveja, potes de azeitona ou mais horas de trabalho.

Ele topou retornar  para comprar meu shampoo mensalmente!

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Feijoada à Grega

A Zona Sul  abriga a maior concentração de empresas, multinacionais, escritórios e agências de São Paulo. Por conta disso, é notável o alto índice de restaurantes por quarteirão, sendo o tipo self-service o  predileto dentre os apressados portadores de Visa Vale.

Este tipo de restaurante transforma o horário de almoço nos bairros Vila Olímpia e Brooklin em um cenário gastronômico peculiar. Na mesma refeição é possível degustar um clássico da culinária árabe acompanhado de batatas fritas, é possível comer uma massa recheada com salada de berinjela ao forno e torta de palmito.

Às quartas-feiras as combinações ficam ainda mais diversificadas, com a possibilidade de misturar uma feijoada com arroz integral, filé de frango e algumas unidades de ovo de codorna.Uma característica comum à maioria dos frequentadores dos self-services é a ausência de arroz e feijão em seus pratos. Com uma enorme oferta de saladas, sopas e um sem número de opções de pratos quentes e acompanhamentos; que vão de massas e risotos a carnes com molhos excêntricos e temperos provenientes de alguma região do Mediterrâneo ou do Himalaia; é fácil fugir do básico prato brasileiro.

O tradicional arroz, feijão, bife e fritas fica por conta das famosas “padocas” que servem o “PF”, queridinho dos “almoços felizes” da região.
 Ao andar por estes bairros por volta do meio dia é comum escutar termos como: “o novinho”, ” o verdinho”, “o gostosinho”, “o laranjinha”, “o da sobremesa”, “do espelho”; todos eles referindo-se a algum restaurante que a turma do escritório renomeou.
Na Zona Sul ninguém conhece os restaurantes self-service pelo nome que carregam, para o desgosto dos donos que perambulam entre a mesa do buffet e a cozinha correndo para repor a bandeja de salmão ao molho de alcaparras.
Diante de tantas opções é interessante observar que as pessoas costumam ir sempre ao mesmo seleto grupo de cinco ou seis restaurantes. Entre e sirva-se, R$3,99 a cada 100 gramas ou coma à vontade por R$36,90.

A Lágrima do Coelho

A chaleira apitava já quando Ana foi arrancada de seus pensamentos sobre as últimas explicações, o quartzo rosa e as definições de nepotismo e despotismo pelo brutal toque do telefone ardendo como sinos catedrásticos em seus tímpanos. Entre borbulhas e vapor de camomila, deparou-se com a voz de Sarah.

“Ana, chamei diversas vezes. O passado tem atordoado. A chuva lavou o chão mas a areia teima em prover-se vida própria, materializa-se e vem tocar meu telefone todo dia. Já não sei mais que horas são. Confundo os cumprimentos e nada de suas respostas.”

“Desculpe. Não estive por aqui. Todas as frequências de minhas comunicações se embaralharam, esgotaram. Passei um tempo explorando algumas montanhas sob Sol e neve. Brinquei com a Lua, conversei com as estrelas, fiz da chuva um refúgio. Mas… Me diga. E as cartas na mesa? Como andamos com o doze? Comprou mais alguma clave?”

“Entendo… Olha…São 18 horas…”  Silêncio…

Desligou. Não houve despedida.

Haviam se descoberto no café. Tantos e longos anos de encontros almáticos. Entre letras, armários, texturas. Vislumbravam tardes cinzas através das persianas. Cheiravam a cereja e chocolate amargo. Banhavam-se de corpo inteiro em breves tempestades veranis. Após compartilhares cenas, de Almodóvares a Resnais… Woody Allens  e Truffauts.

Pouco depois descobriram-se novamente em acordes, timbres, solos de guitarra e cerveja. Passearam do Pop ao Jazz. Viram as várias notícias de uma única história nas ruínas de um porão sob a cidade insone. Dialogaram sobre as quatro estações e todos os contos de seus distintos cenários. Peças móveis, atores volúveis, pinturas dançantes. Um quadro visual, sinestésico e barulhento. Sentaram em bares, dividiram bebidas e conheceram muitos passageiros. Vem aqui e me conte sua história, rapaz.

Duas semanas decorreram após o telefonema e Ana nada mais sabia sobre Sarah. Percorreu diversas letras em busca de respostas, e de como fazer as perguntas. Explorou tentativas resultantes em bruta indiferença. 

Ana reconhecia. Possuía talento nenhum com o verbo. Seu desleixo com as comunicações.De qualquer forma considerava incompreensível a forma com a qual Sarah atribuía-lhe uma volatilidade que não acreditava ter. Concordava ser invadida por sorrateiras emoções.  Mas à Sarah conferia também exacerbada razão, faltava voo, faltava mergulho.

Às vezes acreditava ser demasiado moralismo, no entanto, não era este o termo que buscava e faltava-lhe definição para a compreensão. Permaneceu então na escuridão de um túnel. Uma pista coberta por folhas secas.Uma floresta de montanhas rochosas de medo, angústia e ignorância. Apesar de toda a sensação de espinhos, era cedo. Talvez fosse reversível. O tempo regenera a pele ferida. Inclusive as mágoas cicatrizam.

Entre as mútuas paixões, os livros. Em um deles a tão aguardada resposta de Ana. Não como forma de reverter o passado, mas a construção do tempo adiante. 

Nada de ensurdecer Sarah com toques eletrônicos. Sim, cegá-la com letras que embelezem as retinas. Seu retorno ao abrigo às 10. Nos pés, à porta, páginas cheirando a café. Embrulhadas por uma capa azul.


Sequência Real

O velho usava um chapéu de palha ruído por longos anos sob o Sol e discutia rispidamente com o atendente a respeito da dose de conhaque colocada em seu café:

 
– Jovem, vocês diminuíram a dose?
– Não, servimos sempre a mesma quantidade, Seu Camilo, são 25 mL.
– Isso aqui não é 25 mL, de jeito nenhum, meu rapaz. Exijo falar com seu gerente.
– Pode ir até o caixa, ele estará lá.
– Complete os 25 mL e eu não precisarei ir andando até lá para lhe fazer uma reclamação. 
– Os 25 mL foram colocados, seu Camilo, se não estiver satisfeito pode pagar a conta e ir reclamar com o Maurão.
– Me dá então uma dose dessa branquinha, pura, e vê se coloca a quantidade certa dessa vez.
 
Implorava assim como as rugas esculturalmente lapidadas em sua pele fariam, se pudessem, para serem libertas do tom cinzento de sua barba desgrenhada. 
 
Malu acompanhava tudo do outro lado do balcão enquanto decidia a cor da nova bicicleta. Talvez verde, talvez azul, em tons pastel, com uma cestinha de vime no guidão. Eram seis horas da manhã e já fazia algumas semanas desde o abandono das rendas e bordados de tule.
 
Não suportava participar dessas conferências importantes acerca dos contornos da prataria, do design da porcelana e se o ambiente correto teria o estilo Barroco ou Vitoriano. Não achava apropriado escolher entre Peroba-Rosa, Tabaco ou Mogno para abrigar aquilo que não se deve impor determinado abrigo.Um velho amarelado sem capa discursando sobre um personagem secundário que adora superlativos pode escolher entre o braço de uma poltrona de couro marrom ou uma cadeira de balanço ao lado da janela. Um verde de capa dura ensinando a propaganda política desde seus primórdios decidiu estar perto de alguns papéis e lápis.  Um volume amarelo fininho contendo diálogos impossíveis empilhado sobre um menor,  verde que contém as mentiras que algumas espécies humanas contam acham interessante a mesinha de cabeceira. A menina de vestido azul vai para todos os lugares onde tenham uma mantinha quente e uma boa xícara de chá. Não é correto encarcerá-los em madeira, limitá-los ao preenchimento de espaços. Saiu de lá carregando alguns docinhos franceses que, para ela, mais se assemelhavam a mini-hambúrgueres coloridos com tinta aquarela. Prometeu que iria apenas buscar um maço de cigarros.
 
Seu par de tênis brancos estavam bem encardidos o que os tornavam próprios para uso imediato. Sem mais homogeneizar creme aerado de baunilha. Naquela esquina mesmo já identificara o local onde podia sempre esperar por meia dúzia de conhecidos que também usavam sapatos não tão limpos, despidos de intolerância e vestindo longos casacos de gargalhar e argumentar. Argumentar, pensou. “Argumentar” – agora gritava.
 
Terça, Quarta, Quinta…Bons dias para subestimar. A não ser que uma cerveja bem gelada…mas não para todos eles. Sextas e sábados… Superestimados se aceitos os convites  “A não ser que…”.
 
Em um desses dias proibidos Malu subverteu a ordem. Rebelião sabor calabresa acebolada. Quis imediatamente voltar ao oftalmologista e comprar um quadro. Além da bicicleta antiguinha. 
 
– O que vocês acham desses esmaltes holográficos? – Felipe tinha mesmo que saber sobre esses assuntos que em nada agradavam Malu, então ninguém estranhou a pergunta.
 
– Por favor né? – disse Malu – Não somos o seu público e você nunca achou aquele filme que tem a garota ruiva.
 
– E você não podia partir de um melhor referencial, Malu…quinha? Tem mesmo que falar sobre a cor da azeitona depositada em um prato  no fundo da sala mostrada em plano americano onde, na cena, tem uma ovelhas dançando no cantinho?
 
– Faz tanto tempo. Mas lembrei “O Demônio na Garrafa.”
 
– E o do carro que capota e segue carregado por uma bicicleta?
 
– Impossível.
 
Naquela ocasião a conversa estendeu-se depois das bebidas. Pensaram em jogos, um bolero famoso, uma canção francesa, uma voz inconfundível e o mais agradável aroma de flor que conheciam. Malu já estava pronta. Vestido novo à prova de incidentes e palavras fantasiadas. Cravos não sentem muita afinidade pelas damas da noite. Há algo insuportável na voz das violetas que os atraem com maior eficácia que o aroma. 
 
Foi um longo dia de chuva de sete de ouros no vidro limpo, mas ainda parecia tudo muito embaçado. “É uma carta bonita, mas alerta, muito alerta” – pensou. Não há sete de ouros que não possa ser vencido por uma furiosa Rainha de Copas. Cheque Mate!
 
Chorou um pouco a perda do vestido azul, mas aquela camiseta expressava exatamente o que sentia diante de uma segunda-feira. Especialmente quando aplicava a ela o seu próprio significado. O belo mundo das entrelinhas. Interpretações. Calçava as botas somente para não ter os pés molhados. A camiseta ria, gargalhava do dia. 
 
Malu admirava a imprevisibilidade dos ventos pós-chuva. Podia, finalmente, estar feliz pelo simples fato de discordar às vezes. Mais feliz ainda com algumas palavras proferidas sem controle, um gesto de aspas não podem reparar o que foi dito, havia ali uma grande situação e era agradável.
 
No reencontro todos viram a ineficaz tentativa de cravos e violetas para serem notados. Malu achou graça. Muito mais pelas outras flores que conversavam sobre algum elemento químico. Oxitocina. Havia espaço para apenas uma borboleta que gostasse de anelídeos. 
 
Eram seis horas da manhã e Malu pedalava em sua bicicleta verde pastel em direção à padaria. Sentou-se ao lado de Seu Camilo e deu-lhe de presente um novíssimo chapéu de palha. Beberam o café em silêncio.

Existe amor em SP?

“Mais amor, por favor!”, imploram algumas pichações espalhadas pela cidade. Um dia você entra no metrô ainda sonolento. Percorre os olhos em busca de um assento vazio e lá está ela. Cabelos pretos, curtos, despenteados, olhos verdes, vestindo jeans e camiseta e… Catapimba! Ela é estudante de arquitetura, neste ano entregará o trabalho de conclusão de curso, será contratada como assistente de projetos de um importante escritório, escolherá Peônias e vocês terão três filhos: João, Laura e Manoela. Ela desembarca na Estação Ana Rosa e você segue viagem até a Liberdade onde fica o escritório de advocacia em que faz estágio.

A Camila passou a quarta-feira inteira sem conseguir se concentrar no trabalho. Convidou o Pedro para ir ao cinema e ele disse que naquele dia teria que ajudar a avó a limpar os peixes para o jantar do aniversário de 77 anos da tia do interior, deixando vaga a possibilidade de um outro dia, talvez. “Por que? Qual o problema comigo? E aquele beijo escondido?”.
Mariana passa três horas por dia analisando perfis no site Par Perfeito. Maurício tropeçou sete vezes desde o ponto de ônibus até a porta de casa enquanto idealizava o dia em que ajudaria uma moça a recolher os livros que ela derrubou na calçada e carregaria parte deles até o destino dela. Ela o convidaria para tomar um chá com bolachas e ali seria o começo de uma bonita e poética história.
Todos os dias Paulistanos carregam consigo histórias de amor, correspondidos ou não. Saem de suas casas à espera do romance ideal. Procuram a cada novidade um motivo para se apaixonar. No entanto, estamos cada vez mais solitários. Cada desilusão nos torna um pouco mais céticos. Não é à toa que dia após dia alguém mais procurou um analista para tratar-se de uma depressão.
São Paulo exige que o estagiário de Direito, a moça da Ana Rosa, a Camila, o Pedro, a Mariana e o Maurício sejam excelentes profissionais. Que falem inglês, espanhol, francês, italiano e aramaico. Exige que conheçam sobre Administração, Política, Literatura e a vida das lagostas, sejam comunicativos, saibam trabalhar em equipe, tenham ótima capacidade de lidar com problemas e que dancem o frevo antes do café-da-manhã.
Todas essas habilidades acabam fazendo os Paulistanos passarem mais tempo dentro de seus escritórios em uma viciosa competição para atingir postos cada vez melhores. E é assim que diminuímos o contato com amigos, familiares e tomamos os colegas de trabalho por círculo social.
A  Flávia sai todos os dias muito tarde da agência de Publicidade em que trabalha e já emenda com os colegas o happy hour ali mesmo, no bar do outro lado da rua. O Ciro é executivo de contas e está conhecendo melhor a Cláudia, que é designer 3D. Clientes namorando fornecedores. O dono da empresa casando-se com a diretora.
Existe amor em SP. Sobra romantismo. Falta tempo. Sobra timidez. Falta encontrar velhos amigos, conhecer novos grupos. Sobra trabalho. Sobra horas vendo o Pôr-do-Sol envidraçado. Falta ir tomar um café sozinho em uma esquina diferente. Sobra almoço-reunião. Falta aceitar um convite de um colega para jantar e conhecer os outros amigos dele. Sobra muita falta.

Ela é um tanto esquisita

São Paulo é uma dessas cidades complexas. No mesmo dia os termômetros podem atingir os vinte e sete graus à tarde e despencar para os doze à noite. Se São Paulo fosse uma pessoa sem dúvida seria uma mulher. Uma moça que não carrega guarda-chuvas, sai de casa de sapatilhas e camiseta e quando desce do ônibus é surpreendida por uma forte tempestade com ventania. O clima é o principal responsável pelas notícias diárias: se chover haverá congestionamento, acidentes e algum problema nas linhas de trens e metrôs. Se não chover, também. Se estiver muito calor os noticiários falarão da necessidade de usar protetor solar e beber muita água.

São Paulo abriga todo tipo de gente. Há quem não sai de casa nunca porque está sempre cansado, há quem não sai de casa por ter medo de bandido, sequestro ou manifestantes. Há quem gosta de happy hour todos os dias e quem se permite diversão apenas nos finais de semana. Há quem come bacon todas as terças-feiras, e uma porção de vegetarianos. Tem depressivos, pessoas felizes demais e quem nunca dorme.
Tem paulistano que vive correndo, ocupado, mal humorado e não para nunca.Tem Paulistano que tropeça toda hora porque estava concentrado no celular. Tem quem perceba cada uma das nuances de um Pôr-do-Sol.
Tem gente que sai de casa de manhã e só volta à noite, levando tudo que precisará dentro de uma mochila. Aliás, outra coisa curiosa são as mochilas. Tudo que se imaginar pode estar dentro de uma: livros, cadernetas, canetas, uma blusa de frio, óculos escuros, máquina fotográfica, batom, chiclete, tablet, lenços de papel, chaves, fósforo, lanterna, remédios, pinça, camiseta do time do coração, garrafa de água da semana retrasada…Tem até carecas que não dispensam o pente. Nunca se sabe!
Quem faz todos os dias o mesmo caminho para o trabalho ou na volta para casa acaba virando conhecido do motorista, do cobrador, dos outros passageiros: “Não apareceu ontem, Dona Tereza, tava doente?”. “Não, eu só cheguei depois no ponto e peguei o ônibus de trás.”. Mas tem quem mude o caminho todos os dias. Tem quem use óculos escuros, fone de ouvido e enfie a cara num livro para não correr o risco de ser abordado e ter que informar as horas ou responder “É mesmo!” para qualquer comentário que envolva palavras como  calor demais, chuva ou qualquer outra manifestação climática.
Em São Paulo tem filhos, netos, pais, avós, tios, sobrinhos, amigos, a prima da cunhada da vizinha da sua avó que ficou sabendo que o Pedro engravidou uma menina de 16 anos e foi obrigado a se casar.
Tem estações de metrô ultra-modernas onde todas as placas estão escritas em português e inglês; e estações de trem da linha 8-Diamante onde na entrada pode-se avistar uma mesinha de uma senhora que vende café-da-manhã e galinhas correndo, convivendo em harmonia com os transeuntes e bolos de mandioca.
Tem gente em São Paulo que nunca dá risada. Tem gente que não contém uma  crise de risos mesmo estando sozinha e em local público só por ter lembrado de uma história que aconteceu há pelo menos uns dez anos.
Em São Paulo há quem se irrite com o governo e quem fique muito bravo por nunca conseguir abrir um pacote de Passatempo sem rasgar. Tem gente que dança e gente que dorme. Tem gente que bebe e gente que dorme. Tem quem fuja de borboletas e quem ache que nunca vai namorar.
Tem quem nasceu em São Paulo. Tem quem veio da Bahia, Porto Velho, Florianópolis, até da Argentina e da Espanha; e, se algum leitor conhecer algum residente de São Paulo vindo do Acre faça o gentil favor de comunicar.
São Paulo é imprevisível e abriga diversas histórias imprevisíveis. Algumas delas são comoventes, motivadoras, empolgantes. Outras são engraçadas, hilárias e até mesmo impossíveis. Algumas são meras mentiras vergonhosas espalhadas por jogadores de pôquer com cara de lata de atum.
São Paulo é multi-polar, multi-cultural, plural. Tem lugar pra todos os tipos de gostos, tem pessoas pra todo tipo de lugar. Um velho de barba suja que toma uma branquinha na padaria antes do trabalho. Um executivo que marca todas as reuniões em um almoço no Figueira Rubayiat. Uma menina de cabelo azul que costuma ir aos festivais de cinema no Cine Joia. Um casal de senhores, ela jornalista, ele arquiteto, ambos aposentados, vão juntos ao MASP ver a nova exposição em uma tarde de quarta-feira. Um corinthiano que não perde um joguinho no Pacaembu. Duas amigas que ainda não descobriram melhor relação café/ambiente que a Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Um japonês que adora   ir a um bar de samba rock na Vila Madalena. Um estudante do colegial que gasta a mesada com camisetas americanas no Shopping Higienópolis e depois dá uma paradinha no Starbucks pra tomar um Frapuccino.  O marido que foi ao Pão de açúcar comprar Funghi Secchi para a esposa preparar um jantar e teve que ligar para ela diante da prateleira para perguntar se era aquilo mesmo e por que ela queria usar um ingrediente com cara de estragado.
Se São Paulo fosse uma pessoa seria uma mulher. E as mulheres são complexas, mudam de humor, não há quem consiga decifrá-las mas também faltam palavras para descrevê-las. São multi-tarefas. Leem, escutam música e respondem a um e-mail ao mesmo tempo.  Não param de andar enquanto procuram o celular dentro da bolsa. Elas usam perfume, batom e são tema frequente de consagrados poetas e contistas. São atraentes e amáveis. Assim é São Paulo, talvez a mais complexa de todas as cidades.

Os incomodados que vivam no jardim

Prima Cláudia acordou naquela manhã pela 467ª vez. Preparou, pela 467ª vez seu próprio café.Pegou as chaves, saiu correndo e ligou o carro, pela 467ª vez, seguiu pela mesma rua, fez as mesmas curvas e parou no mesmo estacionamento. Entrou, pela 467ª vez  pela mesma porta , subiu pelo mesmo elevador, sentou na mesma cadeira pela 467ª vez e ligou o computador que já fora trocado uma ou duas vezes.
 
Antes de iniciar efetivamente as atividades do dia refletiu, como todas as 466 vezes anteriores, sobre sua insatisfação com o trabalho, a rotina, o preparo do café, as curvas, o elevador e a cadeira que já lhe proporcionava dores nas costas.
 
Ao fim de sua 467ª revolta, Prima Cláudia acionou seu “Controle Automático”: Leitura de e-mails, respostas, contagem de materiais, análise de documentos, conferência de planilhas, negociação de valores, atender o telefone, leitura de e-mails, mais respostas, mais documentos, mais planilhas.
 
Pela 467ª vez Prima Cláudia almoçou no mesmo lugar. Escovou os dentes e voltou para seu computador. Mais e-mails, documentos, cartas, planilhas, comprovantes, pastas, papéis espalhados, um pássaro insistente bicando o vidro, uma caneta colorida gritando, uma foto discutindo com o seu dono, uma banda tocando sobre a mesa ao lado…E finalmente Prima Cláudia, pela 467ª vez saiu, entrou em seu carro, voltou pelas mesmas ruas , mesmas curvas até seu apartamento e  pôs-se a fazer escolhas.  Prima Cláudia  se vestiu, decidiu qual seria seu jantar e sua companhia. Voltou para casa, escolheu o filme, a bebida e se preferia o colchão de casal recentemente comprado ou o frescor do vento soprando em direção ao sofá da sala.
 
Posta a escolha, atendeu aos pedidos não de uma, mas de todas as canetas, conversou um pouco com uma mulher pendurada em sua parede, pediu autógrafo para a banda sob o abajour aceso e foi à cozinha dialogar com as margaridas que encontrara no dia anterior.
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Nunca deixou de haver, entretanto, um jardim à espera de quem quisesse apreciá-lo.
 
Prima Cláudia levantou se pela 468ª vez, preparou seu café e pela 468ª vez saiu. O computador manteve-se desligado.